AMAR-TE SÃO QUATRO POEMAS
I
És vulcão.
Dá-me lume do teu fogo
para apagar as labaredas desta ânsia
que me consome.
O incêndio da vida
que me arde na fornalha do corpo
é uma faiscazinha à tua espera.
Sem ti
sou cinza de flores ardidas,
só me sei piras enfraquecidas,
faúlha levada para parte incerta.
Sou pavio
à deriva pelo escuro do universo,
sou luz inospitamente dispersa nos becos
de calor instável em lareiras de nada.
II
És dilúvio.
Dá-me água do teu mar de beijos
para secar as lágrimas de saudade.
A chuva sobre
os campos verdes do meu sorriso
é um arco-íris de cores lamacentas.
Sem ti,
meus lábios são sede,
meus olhos são pó do deserto.
Sou rio sem corrente,
caudal escoado no sol nascente.
Os amanhãs tornam-se margens secas.
III
És furacão.
Dá-me sopros do teu vento
para parar este remoinho onde pairo louco.
Sem ti,
o chão são quatro paredes
que me enclausuram em bússola sem agulha.
O tempo é uma mó triste onde nada existe.
Sem os teus ares,
sou árvore sem folhas,
sinto-me fruto sem semente.
Morro
sobre o tecido já pálido
das velas de uma caravela
naufragada na madrugada.
IV
És humana.
Dá-me um pouco
da voz da tua alma para calar este silêncio
ancorado ao ecos das minhas mãos
à procura de ti pela noite.
Sem ti,
as canções são mudas,
os poemas são estrépitos restos de mim.
Sem ti,
sou poeta desfragmentado,
letra trôpega por palavras cegas.
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POEMAS, HENRIQUE
DESEJO-TE UMA SEMANA MARAVILHOSA, BJS