VONTADE DE CHORAR
A solidão
que procuro em mim
é uma escalada falsa e fria.
Tal Outono
se espalhasse escuro
nas palavras ácidas de dizer.
É tinta que não pinta.
Tal Afrodite
deixasse de ser Deusa
e o amor uma árvore de mármore.
É tinto
que não embriaga
a sede do sentimento.
Tal lume sem fogo
soltasse fumos de paixão enjoativa.
É barriga sem boca
onde ressona a fome de ser borbulhaço,
medramente tóxico num frasco de memórias
fora do seu prazo de validade.
O silêncio
que procuro em mim
é um vento que me esculpe na poesia
cumes perfeitos sem formas.
É peso que não pesa
na balança do grito acontecer.
É amar
de qualquer maneira
o que se ama num destino espumante,
embebido em bagaço destilado
das pétalas das rosas.
É voz pouco falante
no decote da noite que nos come os olhos.
Tal lua fosse as mandíbulas de um tubarão.
É cetim áspero
que alimenta a vontade de chorar.
Tal água não molhasse o rosto.
A verdade
que procuro em mim
é uma tábua de sol que me ajuda
a caminhar sobre os lodos do passado.
É janela aberta
aos obstáculos que perfumam o dia-a-dia
com pólen que nos encoraja o ego.
São horas escravas
de um geleia demorada no pensamento
aquando um olhar estranho nos alarma
aromas doces e acres.